VENTRE DA LUA
Estou só,
Sempre só,
Meu amor é a solidão.
Peregrino sozinho,
Novamente sozinho,
Dentro da escuridão.
Namoro a lua cheia
Sempre solitária
Nessa imensidão.
Viajo pelo seu ventre,
Um retrato eloqüente
Da própria solidão.
Invento peregrinas
Palavras solitárias
Em forma de oração.
Crio versos escuros
Dentro do silêncio
Do meu coração.
Publico meus achados
Nas páginas vazias
Do blog da solidão.
O blog está só
Como eu estou só
Nessa noite de verão.
Estou solitário,
Sempre sozinho,
Só silêncio e solidão.
ITAPOÂ – ABAETÉ
À tarde,enquanto cismo,olhando o mar
Imenso abraçando o sol de Itapoã,
Leves gaivotas beijam brancas dunas
E as consagradas águas de Abaeté.
Um arco íris espreguiçando no ar
Surfa bravias ondas desde Piatã,
Bem longe vislumbro belas escunas,
Perto sinto cheiro de acarajé.
Ai tomo uma água de coco gelada
Para curtir a boa preguiça baiana,
Extasiado com tanta natureza.
Tarde em Itapoã ou na lagoa encantada,
Presenteia nossa sensação humana
Com mil imagens de rara beleza.
SAGA PESSOAL
Coisas estranhas , mistérios profundos,
Sempre aconteceram em minha vida.
Entendo que nem todos acreditem
Quando conto sobre um velho mendigo
Que me lançou uma santa profecia,
Antes de desaparecer na noite,
“Que não teria mais fome” e não tive.
No entanto, ficou essa dívida eterna,
Por isso, ontem á noite, bebi vinho,
Comi pizza, sentado na calçada
Com um louco catador de papéis
Olhando-me de modo agradecido,
Rememorou-me o velho vaticínio,
“Moço,que nunca lhe falte comida!”
Entendo que pensem que invento tudo
Sobre minhas aventuras e amores,
Os meus fantasmas,minhas alegrias,
As minhas estrelas,as minhas flores,
Minhas histórias e minhas loucuras,
Minhas danças e meus saltos profundos.
Se não acreditaram na verdade
Da aparição do noturno mendigo,
Não adianta relatar novos fatos,
Eu mesmo duvidaria de mim.
AUTO DE NATAL
Natal de 2.009
Moço, o senhor deve ser muito rico,
Disse-me rindo o pequeno menino
Quando ganhava um pedaço de pão.
Quedei-me parado, como um burrico,
Contemplando aquele pobre destino
De um inocente deitado no chão.
Aos olhos da mãe parecia um banquete
A simples visão do humilde presente
Em seu sujo colo depositado.
Cortou-me o coração como estilete
As palavras do mendigo sem dente
Dizendo bêbado, um muito obrigado.
Ao longe, músicas de alguma festa
Movida á ceia bebida e diversão
Ferem meus ouvidos diante do quadro.
Os sons recordam-me que pouco resta
Do amor que acende, da fé que incendeia
A fraternidade no coração.
Deitado no seu berço de papel,
Os braçinhos erguidos para o céu,
Naquele momento triste e bendito,
O menino olhou-me interrogador:
O senhor não pode ser Papai Noel,
Não usa vermelho, é muito esquisito!
Menino!, repreende o bêbado aflito,
Parece que não conhece um pastor
Pagando promessa á Nosso Senhor.
Nesse mesmo instante brilhou uma luz,
Estrelas riscaram a escuridão,
Um anjo montou guarda pensativo,
Pastores seguiram a voz que conduz
A esse local da nova salvação,
Diante desse novo presépio vivo.
Lágrimas molham o rosto do poeta
Como novo vinho e não como sal,
Diante da revelação do profeta
Desse novo milagre do Natal.
MELHOR ANTES...
(Poema feito na mesa de um Restaurante, durante um almoço solitário, como tantos...)
Antes que se faça o ódio
Melhor libertar o coração,
Antes que se faça o tédio
Melhor namorar a solidão,
Antes que se faça a noite
Melhor domar a escuridão,
Antes que se faça o açoite
Melhor matar a escravidão,
Antes que se faça o problema
Melhor conhecer a solução,
Antes que se faça o poema
Melhor buscar a inspiração,
Antes que se faça a sorte
Melhor esquecer a maldição,
Antes que se faça a morte
Melhor conseguir a salvação,
Antes que se faça o amor
Melhor espantar a paixão,
Antes que se faça a dor
Melhor perder a excitação.
Melhor acordar com a vida
Antes que se faça a traição,
Melhor uma saudade doída
Do que amargar a perdição.
Antes que se faça tarde
Melhor respirar a manhã,
Antes que se faça o ontem
Melhor esperar o amanhã.
Antes que se faça escuro
Melhor um sol encantado,
Antes que se faça o futuro
Melhor ficar no passado.
DESEJOS
Eu quero a inspiração
De um poema lírico
Nunca escrito...
Os acordes melódicos
De uma canção romântica
Nunca executada...
A paisagem bucólica
De um quadro exótico
Nunca pintado...
A palavra escondida
Nas dobras do tempo,
Nunca descoberta...
Os gestos idílicos
De um amor eterno
Nunca vivido...
As orações sublimes
De velhos profetas,
Nunca proferidas...
As cores fantásticas
De flores esotéricas,
Nunca plantadas...
Para poder, ao menos, nessa madrugada
Ser o teu sonho brilhando no mar,
Velando teu sono,
Beijando teus lábios,
Visitando tuas grutas,
Mesmo que em ritual de despedida.
O sol já acordou, apressando a partida...
Mas quero ser tua chegada
Teu Porto Seguro,
Teu Porto Calvo ou teu Porto Rico,
Mesmo por alguns dias ou momentos,
Só para ser teu destino.
PALHAÇO
Creio ter nascido
Nas dobras do tempo,
Em qualquer lugar perdido
Da China ou do Egito,
Da Índia ou da Grécia,
Ou mesmo da Itália,
Em qualquer país distante
Do oriente ou do ocidente,
Nas práticas inusitadas
Encenadas em rituais
De ancestrais picadeiros.
Creio ter crescido
Bufão de vilas medievais,
Bobo de cortes reais,
Saltimbanco de feiras,
Truão de pantomimas
Jogral de fábulas,
Anticonvencional,
Absurdo e ilógico,
Louco e transgressor,
Quixotesco,
Grotesco.
Creio ter vivido
Atrás de coloridas máscaras,
Expondo todas minhas fraquezas
Através dos risos alheios,
Colhendo as alegrias
De desconhecidos expectadores
Para depois chorar as próprias dores
Dentro do solitário camarim.
... Creio ter entendido
Que sempre fui e serei
Um eterno palhaço.
De volta ao meu canto que a vida é bela!
SONHOS SÃO BREVES
Poderia ter sido a maior,
Poderia ter sido a melhor,
Se, ao menos, tivesse sido
Uma breve história de amor.
Poderia ter sido mais mágica,
Poderia ter sido mais marcante,
Se, ao menos, tivesse sido
Uma breve comédia romântica.
Poderia ter sido mais trágico,
Poderia ter sido mais sofrido,
Se, ao menos, tivesse sido
Um breve drama de paixão.
Poderia ter sido mais celeste,
Poderia ter sido mais terreno,
Se, ao menos, tivesse sido
Um breve romance clássico.
Poderia ter sido mais lindo,
Poderia ter sido mais lido,
Se, ao menos, tivesse sido
Um breve poema lírico.
Poderia ter sido o tudo,
Poderia ter sido o nada,
Se não tivesse sido, apenas
Um breve sonho ou fantasia.
Sonhos e fantasias são breves.
Se quisermos torná-los reais
Desaparecem na distância
Ou na brevidade do tempo.
ROSA DE SEDA
Noite fria e triste.
Vento galopando nas copas das árvores, assobiando apressadas valsas.
Negras nuvens rasgando o céu, grávidas de água.
Lua pálida ensaiando passos de dança nos salões deixados pelas nuvens, único vestígio de beleza quebrando a monotonia da noite fria e triste.
Casais de gatos vadios e barulhentos copulando loucamente sobre os telhados.
Almas penadas coreografando novos assombros nos cemitérios sombrios.
Amazonas desgrenhadas, ensandecidas e luzes malditas serpenteando sobre os picos das montanhas.
Noite fria e triste.
Olhos colados na escuridão, grávidos de lágrimas.
Insônia atormentada gritando pelo sono fugitivo.
Porta aberta.
Poeta caminhando pelas ruas desertas da pequena cidade deserta.
Rumo incerto buscando o nada.
Paralelepípedos rangendo sob os sapatos.
Nostalgia gelada adubando os pensamentos fugidios.
Perdido sob luzes bruxuleantes engastadas nos postes.
Mariposas bêbadas suicidando-se.
Longo tempo, séculos se arrastando pela mente do Poeta absorto.
Eis um som, uma música quebrando o silêncio eterno.
Gás néon anunciado o “Clube Rio Branco” no meio da névoa.
Orquestra desfiando a “Valsa dos Quinze Anos”.
Porta aberta.
Convite de quinze anos da amiga esquecido no bolso do paletó surrado, apenas uma coincidência.
Lembrança adormecida acordando repentinamente.
Pensamentos ressuscitados.
Tanta gente alegre, rostos estampando felicidade, parecendo escarnecer do Poeta solitário, sozinho no meio dos presentes, sem presente de oferta ou de passaporte.
Um sobressalto, uma mão tocando em seu ombro dolorido pelo cansaço de muitas cruzes.
Olhar petrificado buscando a causa do toque ou da alucinação.
Em sua frente, Virgínia, sorriso nos lábios, deusa lunar itálica, perfume inebriante.
Olhos verdes, mágicos penetrando-lhe o espanto.
Tremor nas pernas traindo-lhe a emoção.
Nas mãos de fada, uma rosa de seda, criada com pequenos retalhos.
Lembrança singela do aniversário de Sílvia, a amiga inseparável.
Coração retalhado, descompassado buscando não apagar o momento de doce catalepsia.
Virgínia distribuindo rosas de seda aos presentes, um presente.
Antes um agradecimento do Poeta de coração meio solitário, meio povoado.
Olhares constantes, insistentes, encorajadores.
O Poeta e Virgínia dançando, descrevendo elipses no salão.
Calor estranho queimando as entranhas.
Rostos colados, corpos suados.
Cupido desenhado na parede rindo delirante.
Acordes melodiosos de música celestial, cadência de passos, frases murmuradas.
Amor desabrochando uma rosa de seda.
Felicidade explodindo num turbilhão de cores, arco-íris noturno.
Noite quente e alegre.
Anjos tocando harpas em serenatas místicas.
No bolso, os dedos acariciando o mimo recebido.
Poesias líricas brotando em todos os cantos para encanto dos jograis.
Mãos dadas, um beijo consentido, um Poeta de coração pleno e povoado.
Intervalo da orquestra entrando pelo tempo, aumentando a magia.
Breve intervalo de um, dois, três anos, mais talvez.
Intervalo de fantasias e contratempos, de emoções e desencantos, de presença e saudades, de praçinha com fonte luminosa e filmes românticos, de amor intenso e angustias também.
Breve “Romeu e Julieta” de lúgubre presságio.
Orquestra acordando do sono letárgico.
Música descompassada, marcha fúnebre.
Ogro dançando nas arandelas envelhecidas dos sonhos.
Aranhas tecendo enegrecidas teias nos cantos da parede e sobre um Cupido transformado em gárgula cuspindo veneno.
Demônios loucos rodopiando coreografias macabras.
Estrela sangrenta querendo parir um sol encruado.
Salão quase vazio, quase.
Em um banco, Virgínia sorridente, pura e meiga, cândida e sincera, deusa lunar, itálica, perfume inebriante, aos abraços com outro príncipe, sapo talvez.
Nuvens negras rasgando o céu.
Chuva ácida misturando-se com lágrimas amargas.
Apenas restando a mesma noite fria e triste, o mesmo Poeta amargurado e uma rosa de seda desbotada.
POETA CORAÇÃO
Sangrado coração, seco como deserto,
Veja o oásis e as palmeiras no fim do horizonte,
Solte-se do grilhão e voe pelos céus liberto
Em busca das miragens da sagrada fonte.
Liberto coração não é terreno vazio,
Plante um belo jardim de coloridas flores
Regadas á emoção, aquecidas do frio,
Como encantadas musas de tardios amores.
Florido coração, pulsando fantasias,
Paixões descontroladas, líricas poesias,
Canções imaginárias de puro saber.
Cansado coração, corteje a liberdade,
Para não diminuir a possibilidade
De descobrir o amor e degustar o prazer.
FRUTO DA INSÔNIA
Minha poesia nasce nas entranhas
Dessas madrugadas mal dormidas,
Na solidão de noites medonhas,
Na companhia de luas mal amadas.
Minha poesia cresce no silêncio,
Distante dos barulhos do dia,
Nas vagas penumbras da existência,
Nas sombras do absoluto vazio.
Minha poesia vive nas insônias
De negros fantasmas solitários,
Presos á maldições centenárias.
Minha poesia morre pelo medo
De acabar enquanto o amor transborda
E dormir enquanto o sol acorda.
RISCOS
Preso em rotos dilemas
De dormir com a certeza
De velhos sentimentos
Ou acordar na aventura
De noviços momentos.
A minha alma indecisa
Prefere a solidão
Do que sofrer os riscos
De magoar o coração.
CISMAS VESPERTINAS
Para suportar a angustia do grito
Em sua desmesurada intensidade,
Preciso ter com Deus, intimidade,
Ter do espírito, a doce liberdade,
Ter a fé do peregrino bendito,
Para suportar as minhas loucuras,
Necessito ter paixão pela vida,
Reverenciar qualquer coisa proibida,
Redescobrir a palavra perdida
Nos fundos abismos das amarguras,
Encontrar a saída do labirinto,
Sobreviver a tantas solidões
Sem envenenar outros corações,
Sem escravizar outras emoções,
Sem morrer afogado no absinto,
Matar esse sentimento nocivo,
Negro fruto de antigas profecias
Cozido no fogo das alquimias
Para libertar-me dessas magias
Enclausuradas em tardes sombrias
E ressuscitar defuntas poesias
Dos escombros das parcas alegrias.
Preciso de você para estar vivo
SINA
Mais uma vez, mais uma noite de lua cheia
Escondida atrás dos presságios, não clareia,
Velhas alquimias borbulham na taça cheia
Enquanto desnudos magos dançam na areia.
Mais um louco mistério nas dobras do mundo
Sepulta o amor eterno, no inferno profundo,
Ferindo de morte um coração vagabundo,
Quando ansiava germinar um sonho fecundo.
Mais uma maldição de antigas profecias,
Assassinando no berço, puras poesias,
Nascidas no ventre de parcas alegrias.
Ancestrais dramas de apaixonantes enredos
Deixou-me escapar mais uma vez entre os dedos,
Esse amor presente, abortado por meus medos.
DESTINO
Os melhores dias desse mundo
Começaram quando eu nasci
E as melhores noites também.
Dias para cometer loucuras,
E provocar os acomodados,
Para escandalizar, também.
Noites para fazer amor,
Escrever poemas solitários,
Tomar vinho tinto também.
Dias para contestar as regras
E cortejar a liberdade,
Saltar os abismos também.
Noites para celebrar festas,
Contemplar estrelas cadentes,
Ter muitos orgasmos também.
Dias para o corpo tornar-se alma
E navegar as nuvens do céu
Na eterna procura dos sonhos.
Noites para a alma virar corpo
E navegar os lençóis da cama
Na eterna busca dos desejos.
Para os dias, nasci para ser eu,
Para as noites, nasci para ser meu.
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